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O CONSUMIDOR BRASILEIRO DE 2025 AINDA PENSA ASSIM SOBRE O CARRO ELÉTRICO?

Em maio deste ano, uma reportagem da Quatro Rodas chamou atenção ao mostrar que parte dos consumidores brasileiros estava repensando a compra de carros elétricos no Brasil. O dado era verdadeiro, mas havia um detalhe importante: a pesquisa da EY havia sido realizada em 2025. E o que ela mostrou não foi uma rejeição ao carro elétrico. Apenas 11% disseram ter desistido da compra, enquanto 39% estavam adiando ou reconsiderando a decisão e 46% mantinham seus planos. O consumidor brasileiro não disse simplesmente não ao carro elétrico. Ele pediu tempo. E boa parte desse tempo estava relacionada a questões muito objetivas, como infraestrutura de recarga, disponibilidade de estações públicas, preço, bateria e quantidade de opções. Só que passou um ano. E num mercado que está mudando na velocidade da eletro mobilidade, um ano é muita coisa. A pergunta que faço é simples:

OS MOTIVOS QUE FIZERAM O CONSUMIDOR ESPERAR EM 2025 CONTINUAM DO MESMO TAMANHO EM 2026?

Imagem 1 — Reportagem da Quatro Rodas com dados da EY sobre a intenção de compra de carros elétricos no Brasil em 2025.

Quando olhamos com mais cuidado para a pesquisa, isso fica ainda mais evidente. Entre os consumidores que não pretendiam adquirir um elétrico, 36% apontavam a falta de estrutura de carregamento em casa ou no trabalho e 33% reclamavam da ausência de estações públicas. Outros 28% demonstravam preocupação com a substituição da bateria, outros 28% com o preço do veículo e 17% com autonomia e incertezas sobre os custos da recarga. Ou seja, a pesquisa fotografou um consumidor olhando para o mercado que existia naquele momento. Ele estava tentando responder uma pergunta bastante racional: se eu comprar, onde vou carregar, quanto isso vai me custar e quais opções realmente tenho? Por isso, não acho correto pegar aquela fotografia e transformá-la numa sentença definitiva sobre o futuro do carro elétrico no Brasil.

Comecemos justamente pelo maior problema apontado por aquele consumidor: a infraestrutura. Em agosto de 2025, o Brasil tinha 16.880 pontos públicos e semipúblicos de recarga. Em agosto de 2026 já eram 29.866, crescimento de 76,9% em apenas doze meses. Mais impressionante ainda é observar a recarga rápida. Os carregadores DC saltaram de 3.855 para 11.397, uma expansão de 195,6%. Em outras palavras, enquanto o consumidor dizia em 2025 que tinha receio de não encontrar onde carregar, o país colocou quase 13 mil novos pontos públicos e semipúblicos na rede em apenas um ano. A própria Empresa de Pesquisa Energética registra a rápida expansão da infraestrutura brasileira e utiliza a base da ABVE como referência para acompanhar essa evolução.

Imagem 2 — Em apenas 12 meses, o Brasil ampliou fortemente a rede de recarga, com destaque para o avanço dos carregadores rápidos DC. Fonte: ABVE Data e Tupi Mobilidade.

Esse assunto ficou ainda mais evidente para mim durante a RoadTrip RJ e a NACS Show 2026. Antes e durante a feira, percorremos operações no oeste americano, visitamos postos e pontos de recarga e observamos algo que é difícil compreender olhando apenas para apresentações ou planilhas: a recarga elétrica já convive, na prática, com o abastecimento convencional. Depois, nas sessões da NACS, discutimos modelos diferentes para o revendedor entrar nesse negócio, desde ceder o espaço para uma operadora até investir e controlar a própria operação, o preço e a experiência do cliente.

Essa discussão me lembrou imediatamente de algo que escrevi no livro: Vivendo o Varejo Americano: “Problemas sempre existiram e a continuidade de crescimento desse mercado depende da forma como o Estado, a indústria e o varejo se adaptam às mudanças.” Foi exatamente isso que vimos nos Estados Unidos. A infraestrutura não nasceu pronta. Ela foi crescendo junto com o mercado, com os carros, com a tecnologia e, principalmente, com as necessidades do consumidor.

Imagem 3 — Estrutura de recarga observada pela RoadTrip RJ nos Estados Unidos durante a NACS 2026, mostrando na prática como a recarga já está integrada à operação dos postos.

Mas não foi apenas a quantidade de carregadores que mudou. Mudou também aquilo que o brasileiro encontra quando entra numa concessionária ou começa a procurar um carro eletrificado. Segundo a ABVE, em maio de 2025 o mercado brasileiro tinha 174 modelos eletrificados disponíveis. Doze meses depois eram 229 modelos, crescimento de aproximadamente 32%.

E existe outro dado que considero ainda mais interessante: os modelos fabricados ou montados no Brasil passaram de apenas 5 para 21. Quanto maior o número de opções, mais o consumidor pode procurar aquilo que efetivamente combina com sua realidade, seu bolso, sua família e sua forma de utilizar o automóvel. O carro que não servia para aquele consumidor talvez continue não servindo. A diferença é que agora existem mais alternativas para ele escolher.

Imagem 4 — Em um ano, o número de modelos eletrificados oferecidos no Brasil cresceu de 174 para 229, enquanto os fabricados ou montados no país passaram de 5 para 21. Fonte: ABVE Data.

E existe uma informação que ajuda a mostrar que essa transformação não está acontecendo apenas na oferta. Em maio de 2025, os eletrificados representavam 7,8% das vendas de automóveis e comerciais leves no Brasil, considerando a metodologia da ABVE e excluindo os micro híbridos. Em maio de 2026, essa participação chegou a 17%. No mesmo comparativo, as vendas de veículos 100% elétricos cresceram 198%. Isso não me autoriza a dizer que aqueles 39% que estavam esperando mudaram de opinião. Não temos uma nova pesquisa com as mesmas pessoas e as mesmas perguntas para afirmar isso. Mas me permite dizer algo objetivo: o mercado para o qual aquele consumidor estava olhando mudou bastante em apenas doze meses.

Na questão da bateria, precisamos ter o mesmo cuidado. A pesquisa mostrou que 28% estavam preocupados com a substituição da bateria e 17% mencionavam autonomia e incertezas relacionadas ao carregamento. Não encontrei uma pesquisa brasileira equivalente, feita em 2026, que permita afirmar que esse receio desapareceu. Então não vou dizer isso. O que podemos afirmar é que aumentaram a rede, a recarga rápida, a quantidade de veículos disponíveis e a participação dos eletrificados nas vendas. É justamente por isso que comportamento do consumidor não pode ser analisado como uma fotografia eterna. Em O Consumidor Tem Pressa escrevi uma frase que continua resumindo muito do que penso sobre esse processo: “Levar soluções ao consumidor é a chave mestra de qualquer negócio.” O consumidor não precisa que alguém tente convencê-lo de que o carro elétrico é maravilhoso. Ele precisa que o mercado resolva os problemas que o impedem de escolher.

Imagem 5 — A infraestrutura de recarga já aparece integrada a operações de varejo, exatamente uma das barreiras apontadas pelos consumidores na pesquisa da EY.

E é aqui que essa discussão chega definitivamente aos postos de combustíveis. A NACS 2026 reforçou para o nosso grupo que não existe uma resposta única sobre instalar ou não instalar carregadores. Existe endereço, fluxo, investimento, demanda, experiência, conveniência e estratégia. O próprio debate da RoadTrip mostrou que a recarga precisa ser analisada integrada à loja, ao tempo de permanência e às novas possibilidades de receita, não apenas como um equipamento colocado no canto do terreno. A pergunta para o revendedor não deveria ser simplesmente se o carro elétrico vai substituir o carro a combustão. Essa disputa empobrece a discussão. A pergunta deveria ser outra:

O que o meu consumidor vai precisar de mim nos próximos anos e qual papel o meu posto pretende ocupar nessa transformação?

Talvez o consumidor de 2025 não estivesse rejeitando a eletromobilidade. Talvez estivesse esperando que o mercado estivesse mais preparado para ele. Parte dessa preparação aconteceu, e aconteceu rápido. É exatamente por isso que acompanhar números, visitar operações, ouvir consumidores, participar de eventos como a NACS e comparar o que acontece fora do Brasil com a nossa realidade é tão importante. Esse é o trabalho que venho fazendo há anos no Errejota, nos meus livros, artigos, viagens técnicas e estudos sobre comportamento do consumidor. E é também o que levo para minhas palestras. Se o mercado de postos quer entender para onde a mobilidade está caminhando, não basta falar de carro elétrico, carregador, combustível ou tecnologia.

É preciso entender o consumidor que vai decidir quando, como e por que utilizar cada uma dessas soluções.

É nesse ponto que acredito poder ajudar o revendedor, as distribuidoras e as empresas do setor: transformar informação, experiência de campo e comportamento do consumidor em decisões melhores para os negócios.

           

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