
O chamado “Dia Livre de Impostos” se consolidou no Brasil como uma grande ação promocional cujo objetivo é a conscientização tributária. Durante um único dia, produtos aparecem nas vitrines com descontos equivalentes à carga tributária incidente sobre eles, gerando filas, repercussão nas redes sociais e sensação momentânea de vantagem para o consumidor. O problema é que, do ponto de vista psicológico e comportamental, quase nada disso produz aprendizado duradouro sobre o peso real dos impostos no cotidiano da população. O consumidor não desenvolve percepção tributária por meio da exceção. Desenvolve pela repetição, pela exposição contínua e pela sensação concreta de perda no momento da compra. Existe uma diferença profunda entre ver um produto “mais barato hoje” e visualizar diariamente quanto dinheiro está sendo retirado de você em cada operação realizada no caixa.
Nos Estados Unidos, a lógica tributária no varejo segue justamente esse princípio de separação perceptiva entre preço do produto e valor do imposto. Em praticamente todo o comércio americano, o consumidor visualiza nas prateleiras apenas o preço líquido do item, enquanto o imposto estadual ou municipal é acrescentado somente no momento do pagamento. Isso cria um fenômeno psicológico extremamente relevante: o imposto deixa de ser invisível. A cada compra, o consumidor percebe claramente quanto está pagando pelo produto e quanto está entregando ao Estado.

Ao longo do tempo, essa repetição contínua constrói consciência tributária espontânea, sem necessidade de campanhas pontuais ou ações promocionais específicas. O modelo americano não nasceu necessariamente como uma ferramenta educacional planejada, mas acabou produzindo um efeito comportamental poderoso ao tornar a tributação cognitivamente saliente. O cliente não apenas sabe que existe imposto. Ele sente o imposto em todas as compras realizadas.
Mas seria possível uma mudança dessa magnitude funcionar no Brasil? A resposta talvez esteja menos na estrutura tributária e mais no comportamento cognitivo do consumidor brasileiro. O brasileiro convive há décadas com uma relação de consumo extremamente baseada em preço final, parcelamento e sensação imediata de vantagem, enquanto o imposto permanece invisível dentro da composição do produto. O cérebro do consumidor nacional aprendeu a enxergar apenas o valor total da compra, sem dissociar o que é preço do produto e o que é arrecadação estatal. Porém, a repetição diária tem capacidade de remodelar percepções e criar novas memórias de consumo.

Como já destaquei no livro Vivendo o Varejo Americano, “a memória do indivíduo tem a capacidade de armazenar tudo o que se vê, sente, percebe ou pensa durante todo o dia” e “experiências negativas ficam num lugar de fácil acesso na memória”. Se diariamente o consumidor brasileiro visualizasse no caixa quanto está sendo retirado dele em impostos, o processo deixaria de ser abstrato e passaria a ocupar um espaço recorrente dentro da construção cognitiva da compra. Aos poucos, o imposto deixaria de ser apenas um número invisível dentro do preço e passaria a ser uma sensação concreta de perda percebida.
Talvez nenhum setor no Brasil simbolize tão fortemente essa distorção perceptiva quanto o mercado de combustíveis. Durante décadas, os postos de combustíveis e os revendedores foram colocados diante da opinião pública como os grandes responsáveis pelos preços altos da gasolina e do diesel, mesmo operando dentro de uma cadeia extremamente carregada de impostos, custos logísticos, políticas de preços e margens muitas vezes apertadas. O consumidor olha para o painel de preços na avenida e dificilmente consegue distinguir o que é custo do produto, o que é imposto e o que efetivamente permanece com o posto revendedor.

Imagine o impacto educacional que existiria se, no momento do abastecimento, o consumidor visualizasse claramente no caixa quanto daquele valor corresponde à carga tributária incidente sobre cada litro abastecido. O posto deixaria de ocupar sozinho o imaginário popular de “vilão do preço” e passaria a ser, talvez, um dos maiores instrumentos de conscientização tributária do país. Nenhum outro segmento possui contato tão frequente, emocional e financeiramente sensível com o consumidor brasileiro quanto o combustível. A repetição diária dessa exposição teria força suficiente para modificar lentamente a percepção coletiva sobre impostos, preço e responsabilidade dentro da cadeia de consumo.
Em 2021 lancei um vídeo que bateu milhares de visualizações justamente por destrinchar os valores cobrados e mostrar para onde vai o valor pago na bomba. Assista o vídeo abaixo:
O verdadeiro debate sobre impostos no Brasil talvez nunca tenha sido sobre o tamanho da carga tributária em si, mas sobre a invisibilidade dela no cotidiano das pessoas. O consumidor brasileiro aprendeu a reclamar do preço, mas não foi educado a compreender sua composição. Enquanto campanhas pontuais transformam impostos em ações promocionais de um único dia, a consciência tributária real continuaria sendo construída lentamente pela repetição, pela exposição diária e pela percepção concreta da perda no momento da compra. A mudança cultural mais poderosa não seria um “Dia Livre de Impostos”, mas um país onde cada cidadão pudesse enxergar claramente, todos os dias, quanto do seu trabalho está sendo destinado ao Estado em cada produto consumido. Talvez somente assim o debate tributário deixasse de ser ideológico, político ou emocional, e passasse a ser verdadeiramente cognitivo, racional e educativo para a sociedade brasileira.
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