2025 foi o ano em que o setor de lojas de conveniência ocupou de vez a mesa de discussões do varejo brasileiro. Um ano marcado por rupturas silenciosas, decisões estratégicas difíceis, avanços importantes e um consumidor que mudou mais rápido do que boa parte das operações conseguiu acompanhar. E tudo isso molda o que vem por aí em 2026 que promete um dos anos mais intensos da última década para quem vive de vender praticidade, experiência e sensações.

O ano começou falando alto com a saída da Raízen da sociedade com o Grupo OXXO, um movimento que acendeu no mercado um alerta claro sobre o grau de complexidade e sensibilidade que envolve operar lojas de conveniência no Brasil. No meu próprio blog um a cada cinco artigos ao longo do ano tratou diretamente das dores e tensões do varejo de conveniência. E mesmo assim continuamos convivendo com a ausência de algo básico para qualquer mercado maduro: um mapa estatístico real que mostre quantas lojas existem, quantas abriram, quantas fecharam e como esse universo está se movimentando.
Mas não foi um ano perdido. Muito pelo contrário. Quanto mais o brasileiro entendeu o conceito de mercado de proximidade mais o posto de combustíveis começou a despertar para algo que eu venho repetindo há muitos anos. O consumidor não quer só comprar. Ele quer sentir, ele quer viver um momento, ele quer experiência. Isso explica boa parte do que aconteceu ao longo de 2025.
O grande marco do ano foi o lançamento do Shell Café pela Raízen. E não se trata de exagero. O novo layout, a nova ambiência, a leitura correta da tendência do café como experiência e não apenas bebida, tudo isso sacudiu o mercado de franquias de conveniência. Foi um acerto gigantesco. Um ponto fora da curva. Uma aula de marketing e percepção sensitiva. Eu esperava que as demais franquias reagissem rápido trazendo conceitos parecidos, mas a reação não veio no ritmo que o mercado imaginava. Pelo menos não em 2025.

Se existe um comportamento que atravessou o setor de ponta a ponta foi a explosão dos hábitos saudáveis. Quem apostou em produtos de margem mais alta com apelo saudável já está colhendo resultados muito acima da média. E junto com isso vimos um movimento impressionante no universo das bebidas energéticas e das bebidas não alcoólicas, com destaque especial para as cervejas zero álcool. Muitos atribuíram essa mudança às blitz da lei seca, mas isso não procede. O que realmente mudou foi o comportamento da geração Z e dos Millennials que simplesmente não consomem álcool como as gerações anteriores. Essa mudança de hábito impulsiona o giro, aumenta o ticket médio e movimenta toda a cadeia da loja.
No campo da tecnologia o PIX completou cinco anos e continua sendo um divisor de águas dentro das lojas. O uso do papel moeda caiu drasticamente e o ticket médio aumentou. Os sistemas de gestão evoluíram silenciosamente e hoje representam uma das maiores alavancas de controle operacional que o varejista pode ter. Ainda falta muita maturidade no uso estratégico da inteligência artificial mas o caminho já está aberto e quem souber adotá la primeiro vai começar 2026 com vantagem competitiva.

Se existe um ponto que ainda incomoda é a agenda ESG. A sustentabilidade ainda não entrou de verdade no centro das decisões do setor. Ainda não existe uma preocupação estratégica com eficiência energética, resíduos, padrões de governança ou impacto ambiental. E isso precisa mudar. O consumidor está mudando e vai cobrar isso mais cedo ou mais tarde.
O crescimento das lojas de marca própria foi o fenômeno mais importante do ano. Margens maiores, custos menores, liberdade operacional e ausência de taxas tornaram esse modelo extremamente vantajoso para a nova geração de revendedores que finalmente percebeu o valor da loja de conveniência dentro do ecossistema do posto. Não é um caminho mais fácil mas é um caminho mais controlado e mais rentável.
Entre os cases que marcaram o ano eu destaco a Estrela Conveniência de Porto Velho em Rondônia. Uma loja que entendeu de forma brilhante como usar as redes sociais para conectar e vender. Dois jovens experimentam os produtos da loja de forma divertida e natural e os vídeos explodiram de engajamento. Uma prova viva de que inovação não é sinônimo de tecnologia. Inovar é fazer diferente. Inovar é criar relacionamento. Inovar é aumentar vendas com inteligência e criatividade.

Olhando para 2026 eu não tenho dúvida. Será um ano gigantesco. Copa do Mundo, eleições presidenciais, excesso de feriados em dias úteis, turismo acelerado e um consumidor cada vez mais impaciente e consciente. A expectativa de crescimento do mercado brasileiro segue otimista, variando entre três por cento e sete por cento em faturamento segundo dados que tive acesso em pesquisas da NACS para o comparativo de 2024 e 2025.
O grande movimento tecnológico do ano será a modernização dos programas de fidelidade que enfim devem caminhar para a personalização real. Nada mais de pontos genéricos. O futuro é relacionamento. Quanto mais o cliente se relaciona mais ele ganha. Quanto menos se relaciona menos faz sentido estar ali.
O food service será determinante para quem quer aumentar fluxo e margem. Nos Estados Unidos o food service é a principal fonte de receita das lojas de conveniência. No Brasil ele ainda é subutilizado e precisa se tornar protagonista. Já a venda por canais digitais segue tímida mas existe um potencial gigantesco para quem conseguir se comunicar certo com o cliente certo na hora certa.

O foco para 2026 é simples e direto. Conexão. As lojas precisam deixar de tratar redes sociais como mural de promoção e passar a enxergar como canal de relacionamento. Espaços instagramáveis, campanhas segmentadas por idade e por região, leitura sensitiva dos eventos sazonais. Tudo isso fará diferença.
E a reforma tributária entra como o maior ponto de atenção. Vejo muita gente subestimando o impacto dessa transformação e isso preocupa. Em um evento recente em Roraima ficou claro que parte dos revendedores ainda não entendeu a profundidade dessa mudança. Imagine os operadores de loja. Ignorar isso é perder a capacidade de reação.
2025 deixou claro que o setor de conveniência é muito maior do que a prateleira sugere. É comportamento, é sensação, é experiência. 2026 será o ano de quem conseguir ler o consumidor além da compra. Quem entender sentimento, ritmo e contexto vai liderar o jogo. Quem continuar preso no passado vai perder espaço sem perceber.