Neste artigo proponho uma reflexão que vai além da discussão sobre a mistura de etanol na gasolina. O debate não se resume ao combustível que abastece nossos veículos, mas à forma como enxergamos a indústria nacional, a geração de empregos, a soberania econômica e a liberdade de escolha do consumidor. Se defendemos que o Brasil fortaleça sua produção e reduza sua dependência externa, por que essa lógica parece mudar justamente quando falamos do combustível etanol? Talvez seja o momento de discutir esse tema sem paixões distorcidas, sem preconceitos e, principalmente, sem contradições.

Sempre que o governo anuncia um aumento na mistura obrigatória de etanol na gasolina, o debate se repete. Aparecem as piadas sobre “gasolina batizada”, “gasolina transgênica”, críticas de que a medida existe apenas para beneficiar usineiros e reclamações de quem gostaria de utilizar gasolina pura.
Curiosamente, muitas dessas críticas vêm das mesmas pessoas que, em outros momentos, lamentam o enfraquecimento da indústria brasileira, a perda de empregos para outros países e a dificuldade que o Brasil tem de fortalecer sua própria economia. Talvez essas duas discussões precisem acontecer na mesma mesa.
O etanol não é um produto importado. Ele nasce aqui. É produzido por empresas brasileiras, movimenta milhares de propriedades rurais, emprega trabalhadores brasileiros, utiliza tecnologia desenvolvida no país, gera arrecadação aqui e distribui riqueza dentro da própria economia nacional. Quando parte do combustível que abastece nossos veículos é produzida internamente, uma parcela maior desse dinheiro continua circulando no Brasil.

Isso significa que qualquer política voltada ao etanol está automaticamente correta? Evidentemente que não. Mas também não significa que apoiar uma cadeia produtiva nacional seja, por definição, um erro. Na prática, praticamente todas as grandes economias do mundo fazem isso.
Os Estados Unidos utilizam tarifas, incentivos fiscais e políticas industriais para estimular a produção local. A Europa protege diversos setores estratégicos. A China construiu boa parte da sua competitividade combinando investimento público, planejamento e proteção da indústria nacional. Mais recentemente, Donald Trump voltou a defender o aumento de tarifas justamente para tornar mais interessante produzir dentro dos Estados Unidos do que importar produtos prontos.

Não existe mercado totalmente livre quando o assunto envolve setores considerados estratégicos. Energia é um desses setores.
Talvez a discussão mais importante não seja se o governo pode ou não incentivar o etanol. A pergunta talvez seja outra: por que consideramos natural proteger praticamente qualquer indústria nacional, mas quando o assunto é o etanol essa lógica parece desaparecer?
Ao mesmo tempo, existe um argumento dos consumidores que merece ser ouvido. A liberdade de escolha.

Se a tecnologia permite, por que não oferecer diferentes produtos ao mercado? Uma gasolina sem etanol, outra com uma mistura intermediária e outra com a mistura de 32%. Cada consumidor poderia decidir qual faz mais sentido para o seu veículo, para o seu bolso e para o seu modo de utilização.
Em períodos de safra, quando o etanol se torna mais competitivo, muitos consumidores provavelmente optariam espontaneamente pela mistura com maior participação do biocombustível, principalmente considerando que os motores mais modernos já são desenvolvidos para operar perfeitamente com essas proporções.
Essa talvez seja uma discussão mais madura do que simplesmente defender um lado ou outro. Não se trata de escolher entre gasolina e etanol. Trata-se de encontrar um equilíbrio entre três objetivos que podem conviver: fortalecer uma cadeia produtiva brasileira, preservar a competitividade do país e respeitar a liberdade de escolha do consumidor. No fim das contas, essa talvez seja a verdadeira reflexão.

Se queremos uma economia mais forte, provavelmente precisaremos aceitar que alguns setores estratégicos receberão incentivos. Mas, se queremos um mercado mais eficiente, também precisamos confiar na capacidade do consumidor de decidir. Fortalecer a indústria nacional e ampliar a liberdade de escolha não deveriam ser objetivos incompatíveis. Talvez o próximo passo seja justamente encontrar um modelo em que os dois caminhem juntos.
Talvez o problema nunca tenha sido o etanol. Talvez o problema seja que a gente ainda não decidiu se quer, de verdade, fortalecer aquilo que é nosso.
